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02/03/2009
Por L&PM Editores
O jornal O Estado de São Paulo destacou, no último dia 15 de fevereiro, o livro Cartier-Bresson: o olhar do século – obra que traça o perfil aguçado e original do maior fotógrafo de todos os tempos. Bresson era contra biografias, mas autorizou o jornalista francês Pierre Assouline – que se tornou seu amigo e confidente – a escrever sobre sua vida e obra, sendo este o relato definitivo de sua trajetória.
A matéria traz ainda uma entrevista (que você confere transcrita abaixo) com Pierre Assouline, que fala sobre sua amizade com Cartier-Bresson.
O Estado de São Paulo – Você é biógrafo e era amigo de Cartier-Bresson. Essas duas condições não se contradizem?
Pierre Assouline – Não há contradição, mas complementariedade. Eu tinha toda a liberdade e jamais refreei meu espírito crítico. Caso contrário eu não poderia escrever e teria renunciado ao projeto. Era nosso pacto.
O Estado de São Paulo – No fim do volume você escreve que o livro é produto de cinco anos de conversas, correspondência, pesquisas, etc. Como organizou o material?
Pierre Assouline – Exatamente da mesma maneira que as outras nove biografias que escrevi. Recolhi material durante alguns anos e, em seguida, coloquei tudo no chão, olhei as peças do quebra-cabeça, ajeitei-as e escrevi. Duas reaparições constantes na vida de HCB, que fazem pensar no "rosebud", de Welles: a frase "de onde vem o dinheiro" e sua faca de estimação Opinel. A frase é seu rosebud escrito, Opinel, seu rosebud objeto. Isso guiou sua vida. A frase o influenciou porque ele era complexado pelo fato de ser filho de família rica.
O Estado de São Paulo – A trajetória de HCB parece surpreendente - da pintura à foto e da foto de volta à pintura. Como compreendê-la?
Pierre Assouline – Nem tão surpreendente assim, porque se trata menos da pintura do que do desenho. Ele formou seu olhar de fotógrafo no Louvre e na Academia Lothe. O importante não é nem o material e nem a técnica. É o olhar.
O Estado de São Paulo – Em todo caso, essa formação parece bastante paradoxal: da pintura (da educação com Lothe, vem o senso de geometria e a admiração por Piero della Francesca); da convivência com os surrealistas, o trabalho com o inconsciente, o amor pelo acaso, etc. Como conciliar tudo isso?
Pierre Assouline – O surrealismo é a sua juventude. A geometria é seu ser profundo. É o ying e o yang, o surrealismo e a geometria. Ele é produto dos dois. Da loucura na razão, a emoção que corrige a regra, é isso a irrupção permanente do surrealismo em seu espírito de geometria. Pode-se mesmo dizer, em alusão a Pascal, que HCB é o encontro entre o espírito de fineza e o espírito de geometria.
O Estado de São Paulo – HCB era um viajante, cobriu guerras, esteve em vários países em momentos importantes como o assassinato de Gandhi, por exemplo. Você o imagina fora do contexto de um século tão violento e cheio de contradições como o século 20?
Pierre Assouline – Não imagino. Eu o tomo como ele é e no tempo em que ele viveu. Imaginar um outro HCB seria da ordem da ficção científica.
O Estado de São Paulo – Alguns aspectos técnicos são interessantes em sua carreira. Por que o preto-e-branco e não as cores? Por que a Leica e não outra câmera?
Pierre Assouline – Abaixo a técnica! O preto-e-branco correspondia à sua sensibilidade. Quanto à Leica, era o aparelho que melhor correspondia, por sua leveza, sua manejabilidade, sua discrição, ao seu desejo de ser repórter.
A teoria do instante decisivo, o preto-e-branco, etc. - para HCB tudo isso diz respeito a uma estética ou a uma ética da imagem. Uma somada à outra.
O Estado de São Paulo – Entre as viagens de HCB notei a ausência de América Latina, com exceção de Cuba. Por quê?
Pierre Assouline – Uma vida não é suficiente para esgotar o mundo. Ele era europeu antes da guerra. Com uma longa permanência no México. Em seguida, voltou-se para a Ásia.
O Estado de São Paulo – As relações de HCB com o cinema são muito interessantes, em especial sua colaboração com Jean Renoir. Por que ele não seguiu esse caminho?
Pierre Assouline – Porque ele compreendeu que seria melhor fotógrafo que cineasta. A foto é o individualismo, a solidão, a liberdade. O cinema é o coletivo, o grupo, o peso.
O Estado de São Paulo – Muitas vezes os biógrafos tentam esgotar o assunto. Notei que você preserva um lado "misterioso" de HCB...
Pierre Assouline – Concordo plenamente. Guardemo-nos da tentação de tudo explicar.
O Estado de São Paulo – Por que as biografias e como explica o sucesso de seu blog sobre literatura?
Pierre Assouline – Em relação ao blog é a fidelidade dos leitores a um blog que, por sua vez, lhes é fiel porque temos um encontro marcado em torno de um novo artigo a cada dia. E depois há a questão da credibilidade. Quanto ao porquê da biografia, eu precisaria escrever um tratado para lhe responder. Tenho uma nova biografia em preparação, sobre um personagem em relação ao qual ninguém pensa e com uma forma que pretende revolucionar o gênero...
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