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01/04/2010
Por L&PM Editores
Com a entrada em domínio público, em janeiro de 2010, da obra de Sigmund Freud, abre-se caminho para uma recepção plural de Freud, com a possibilidade de várias editoras publicarem diferentes traduções (e interpretações) dos textos freudianos, guiadas por diferentes critérios de tradução e conceituação. O bacharel em filosofia, Renato Zwick, tradutor de Nietzche, Rilke e Thomas Mann, aceitou o convite para traduzir títulos da obra de Freud para a Coleção L&PM Pocket. Os dois primeiros foram O futuro de uma ilusão e O mal-estar na cultura, que chegam às livrarias em março. Para novembro, Zwick trabalha em A interpretação dos sonhos. Em entrevista exclusiva para o site da L&PM, ele comenta as dificuldades de ser tradutor, e os desafios e as escolhas que precisou fazer ao se dedicar à obra de Freud.
L&PM – Quais foram os principais desafios de verter Freud para o português direto do alemão, e como você os resolveu?
RZ – Os desafios de traduzir Freud não são maiores ou menores do que aqueles de traduzir Nietzsche ou Rilke, por exemplo. É verdade que, comparada a de outros pensadores que também escreveram em alemão (Kant ou Hegel, digamos), a prosa de Freud tende a ser mais clara e mais fluida, o que facilita imensamente a tradução. Mas os grandes problemas são aqueles aparentemente insignificantes. Certas vírgulas me deram um trabalho inacreditável.
L&PM – O que o levou a traduzir Das Unbehagen in der Kultur como O mal-estar na cultura, e não – como o texto é tradicionalmente conhecido em português – O mal-estar na civilização?
RZ – Minha primeira escolha para traduzir Kultur foi a usual, "civilização". Parecia-me que em "cultura" havia uma certa nuance (no sentido de cultivo pessoal, de erudição, de refinamento etc.) que não se harmonizava muito bem com o sentido mais amplo que Freud dá ao termo. Freud entende por Kultur não só as realizações intelectuais/espirituais de um povo (ou da humanidade de um modo geral) – que é o sentido em que geralmente entendemos a palavra "cultura" –, mas também as suas conquistas na dominação da natureza – para as quais normalmente aplicamos o termo "civilização". Porém, visto que essa definição de "cultura" é dada de maneira bastante clara (veja-se o capítulo III, em que Freud trata da essência da cultura), não há risco de confusões. Além disso, em O futuro de uma ilusão Freud afirma peremptoriamente que se recusa a separar Kultur e Zivilisation. E se a esse amálgama ele prefere dar o nome de Kultur, respeitemos isso.
L&PM – As traduções consagradas criaram uma espécie de vocabulário oficial de Freud. Na sua tradução, porém, você propõe traduzir o termo Trieb por "impulso" e não por "pulsão", palavra consagrada no jargão psicanalítico. E você também optou por "eu", "isso" e "supereu" em vez de "ego", "id" e "superego". Quais os critérios que o levaram a tais escolhas?
RZ – Em A questão da análise leiga, Freud afirma que preferiu designar as instâncias psíquicas inferidas pela psicanálise com meros pronomes em vez de apelar para sonoros nomes gregos. Parece-me que o uso de "eu", "isso" e "supereu" tem em português a mesma naturalidade de Ich, Es e Über-Ich no alemão. É verdade que "ego", "id" e "superego" se tornaram bastante populares, mas se temos equivalentes em português, para que usar palavras em latim? É o mesmo caso de Trieb. Acho que o uso de um neologismo só se justificaria se não tivéssemos um bom equivalente como "impulso". E se a ideia é traduzir Freud diretamente do alemão para o português, não vejo por que fazer paradas no lacanês, por exemplo.
L&PM – Diz-se que o tradutor de um texto tem uma leitura mais vertical, mais profunda desse texto do que qualquer outra pessoa. Para você, quais os aspectos de O futuro de uma ilusão e O mal-estar na cultura que são mais atuais e que mais podem interessar o público de hoje? E, mais amplamente, na sua opinião, por que Freud continua tendo tal apelo, mesmo tendo se passado um século desde seus primeiros escritos?
RZ – Freud delimita seus temas com precisão. Em O futuro de uma ilusão ele nos mostra que a religião tem bases infantis e defende a saída da infância mediante uma "educação para a realidade"; em O mal-estar na cultura ele leva até as últimas consequências a hipótese de um impulso destrutivo que, voltado para o exterior, afeta as relações dos indivíduos entre si e, voltado para o interior, gera culpa e mal-estar. Nesse sentido, todos os aspectos de ambas as obras ainda possuem interesse para o leitor de hoje, já que o infantilismo religioso e os ímpetos destrutivos ainda parecem estar longe de terem esgotado suas forças para nos moldar e moldar a realidade em que vivemos. O apelo da obra de Freud permanece justamente por sua abordagem de temas universais: o amor e o ódio, a vida e a morte. Não é gratuita a sua referência constante a autores clássicos cujas produções também se ocuparam desses temas, tais como Goethe, Shakespeare e Sófocles.
L&PM – Parte da tradução de O mal-estar na cultura você realizou em Straelen, na Alemanha, graças a uma bolsa para tradutores do Europäisches Übersetzer-Kollegium. De que forma essa bolsa contribuiu para ou facilitou o trabalho de tradução?
RZ – A criação de instituições como o EÜK tem como ponto de partida uma constatação elementar: a de que o tradutor é uma figura marginal. Não só por estar na margem entre duas culturas, importando e/ou exportando valores culturais, mas por geralmente também estar numa espécie de limbo social, nem exatamente incluído nem propriamente excluído. Conheço poucos tradutores que podem viver exclusivamente para e de traduzir. A generosa bolsa concedida pelo EÜK vem ao encontro desse estado de coisas. Além desse atrativo, as condições para traduzir também são ideais: temperatura controlada, bons computadores, uma vasta biblioteca e, com alguma sorte, a possibilidade de conversar pessoalmente com colegas de outros países que já tenham traduzido o autor de que nos ocupamos no momento. Isso sem falar no silêncio e no necessário isolamento: em sua vida ordinária, o tradutor não pode contar com a compreensão de vizinhos, vendedores ambulantes, operadores de telemarketing e familiares. Tais criaturas não costumam vir ao mundo dotadas da necessária sensibilidade para perceber que um tradutor precisa de algum silêncio e de certa solidão para produzir alguma coisa que preste. No EÜK esses obstáculos simplesmente desaparecem. Quantos mortais podem dizer hoje em dia que passaram dois meses de suas vidas a salvo do assédio das operadoras de cartão de crédito? Pouquíssimos, acho.
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