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24/07/2009

Súplicas atendidas: o polêmico, derradeiro e inacabado romance de Truman Capote

Por L&PM Editores

Súplicas atendidas é o explosivo livro que Truman Capote deixou inacabado. Na introdução da obra, o editor americano de Capote, Joseph M. Fox, narra minuciosamente as peripécias destes originais que – perdidos ou simplesmente não acabados – espalharam verdadeiro terror no jet set internacional apenas pela prévia que foi apresentada nos jornais. Os milionários, socialites e celebridades em geral jamais perdoariam Truman pela ousadia de revelar os segredos de alcova do grand monde. Afinal ele era um deles e essas revelações foram consideradas traição. A verdade é que Truman Capote morreu e o livro ficou sem final. Ele jurava que havia escrito a obra inteira, mas o restante dos originais jamais apareceu.

"Chocantemente repugnante e completamente difamatório."
Tennessee Williams

"Capote morde as mãos que o alimentam."
New York Magazine

Essas foram algumas das reações despertadas quando Truman Capote (1924-1984) publicou dois capítulos de Súplicas atendidas na revista americana Esquire. Os amigos que se reconheceram entre os personagens deram-lhe as costas, a alta socie­dade retratada nessas explosivas páginas o execrou, e o medo das revelações que seriam feitas quando o livro fosse publicado na íntegra colocou a todos em polvorosa.

Anunciado por Capote cerca de vinte anos antes da data em que viria a ser efetivamente lançado, este livro transformou-se pouco a pouco numa das obras mais esperadas deste autor, a ponto de ter sido considerado o mais famoso romance não publicado da literatura norte-americana.

Na fase em que chegou a assinar um contrato relativo à publicação do livro, Capote classificou-o como "um equivalente contemporâneo da obra-prima de Marcel Proust, Em busca do tempo perdido", adiantando que o seu objetivo era constituir um estudo acerca do mundo dos muito ricos da Europa e da costa leste dos Estados Unidos. Capote queria fazer dele uma crítica corrosiva à alta sociedade nova-iorquina: referências sexuais, fixações, fantasias, taras, manias; identificando os personagens ou não, ele deixou indícios que permitiam reconhecê-los.

Pouco antes de morrer, o escritor entregou à sua amiga íntima Joanne Carson a chave de um cofre onde estaria depositado o manuscrito de Súplicas atendidas. Porém, o cofre estava vazio. O que aconteceu ao certo com a obra ninguém sabe: as páginas e páginas que ele declarou ter escrito simplesmente não foram encontradas. A versão da obra que acabou sendo publicada contém três capítulos, que seguem a história de um escritor-massagista e suas aventuras pelo jet set, esbarrando com personagens reais, como Montgo­mery Clift e Dorothy Parker.

Do autor, a L&PM já publicou Os cães ladram – pessoas públicas e lugares privados, livro que apresenta textos escritos entre as décadas de 40 e 70.


Marilyn Monroe e Truman Capote

Leia um trecho da entrevista com Truman Capote publicada em 1981 na revista Club, na qual ele fala sobre sua dependência em drogas e bebidas iniciada em 1974, mesma data que diz ter começado a escrever Súplicas atendidas.

Revista Club – Qual efeito em sua carreira ou, pelo menos, qual a impressão que o público tem de você como um escritor e como uma figura literária famosa?

Truman Capote – Por que devo me preocupar com o que qualquer um lá fora pensa? Certo, sou tratado como uma celebridade e todos na rua me chamam de Truman. Acho que sou uma espécie de extensão de seus sistemas nervosos, mas eu conheço meu trabalho e sei quem sou.

Club – O jogo da fama não o incomoda mesmo?

Truman – É apenas um lado meu. Os franceses chamam "monstros sagrados".

Club – E o outro lado? Não temos visto muito de seu trabalho ultimamente e, com certeza, não há indícios da publicação, para breve, de seu tão esperado e difundido livro, Súplicas atendidas.

Truman – Bem, não tenho pressa com o livro, o qual, por sinal, está na outra sala, numa gaveta da escrivaninha. Toda minha vida, e minha carreira se move em círculos.

Club – Você poderia identificá-los?

Truman – A primeira fase começa quando vim para Nova Iorque aos 17 anos e vai até a publicação de Outras vozes, outros quartos e, logo a seguir, Breakfast at Tiffany’s (Bonequinha de luxo). Depois eu não publiquei coisa alguma por quase 10 anos, até A sangue frio. Depois, nada, até que comecei a trabalhar em Súplicas atendidas (1974). Agora estou a quase um terço deste ciclo, passando por meu trabalho atual, e quem sabe o que virá a seguir.

Club – O que você pode nos dizer sobre o livro, principalmente sobre a propaganda feita sobre ele e os trechos publicados na revista Esquire?

Truman – Bem, existe uma concepção bastante errônea sobre o livro, embora eu não possa culpar ninguém a não ser eu mesmo por isso, pois permiti a publicação de trechos fora de um contexto. Mas o livro não é sobre fama, de maneira alguma.

Club – Você pode esclarecer esta concepção errada e nos colocar na direção certa?

Truman – Foram publicados quatro capítulos na Esquire: Monstros intactos, Kate McCloud, Mojave, La cote basque os quais, eu acho, provocaram toda controvérsia. Acho que as pessoas simplesmente foram surpreendidas pela franqueza. Elas pensavam que eu fazia parte de seu circulo íntimo, aquelas sobre quem eu fiz comentários na cena do restaurante para ser mais objetivo.     

Club – Esta não é uma conclusão lógica, levando em consideração sua própria ascensão?

Truman – A verdade é que estas pessoas me interessavam e, sim, eu estava com elas para uma espécie de estudo de campo, mas eu nunca estive muito próximo delas. Como poderia estar? O nível intelectual delas não é muito alto!

Club – Sobre o que é o livro?

Truman – A explicação pra todo o livro vem logo no primeiro parágrafo, onde a personagem central P.B. Jones, diz: "Estive no centro da Terra e lá encontrei monstros destruídos e intactos".

Club – Você pode esclarecer?

Truman – É sobre a migração ao interior da Terra de uma pessoa frustrada, não muito moral, mas extremamente sensível e inteligente: uma versão adulta de um adulto contando a uma criança sobre como cavou o caminho até a China. O assunto não é poder, nem pessoas ricas, nem fofocas escandalosas. É, na verdade, um romance criminal.

Club – O fato de você ter demorado para escrever o livro confirma a teoria sustentada por muitos círculos literários de que escritores americanos perdem o fôlego cedo? Olhe para outros artistas também, como seu amigo Andy Warhol. O que ele produziu recentemente?

Truman – Andy tem feito coisas muito interessantes, e ele tem feito experiências com sua revista Interview, mas não acho que seja absolutamente verdadeira aquela teoria. Norman Mailer, por exemplo, é, hoje, um escritor muito melhor. Não gostei de seus romances nunca. Quando estava trabalhando em A sangue frio, ele disse que me faltava imaginação criadora para escrever naquele estilo de documentário. Eu disse que era muito mais criativo do que escrever outro romance sangrento. Logo em seguida, ele começou a trabalhar em Exércitos da noite (romance documentário dos anos 1960).

Club – Então você se sente seguro acerca de seu próprio trabalho ainda não publicado?

Truman – Tenho absoluta confiança em mim mesmo como escritor. Talvez nem sempre como pessoa, mas considero-me um escritor avant-garde.

Club Avant-garde em que sentido? Súplicas atendidas é avant-garde?

Truman – Bem, acho que sou muito mais avant-garde do que, digamos, William Burroughs, embora o admire como um homem de coragem. Acho que sou mais avant-garde do que Samuel Beckett. Acho que ambos estão um pouco ultrapassados. Mas, não, o romance não é avant-garde no sentido que eu entendo. Estou trabalhando em peças experimentais, uma tentativa de transformar jornalismo em arte, um tipo de coisa que estou fazendo na revista Interview.

Club – Como são essas peças ou contos?

Truman – Eu as chamo retratos falantes e não podem ser explicados facilmente. É uma síntese das várias técnicas que aprendi como escritor. A base é jornalismo puro, combinado com cenário ou enredo, dentro dos limites de um conto. Veja, depois de A sangue frio, senti que levava ao extremo um certo tipo de não-ficção. Sempre precisei me recarregar e isto só é feito por experiências. O problema é encontrar quem publique, e ninguém quer estas peças na sua forma atual. Exceto a Interview, que é meu laboratório. Ainda não tenho controle sobre esta forma, mas sinto-me como uma criança com um estojo de lápis de cores novo, estou muito excitado.

Club – Parece que sua vida, pelo menos a profissional, está muito cheia e você muito ocupado. Toda essa atividade é um esforço para preencher sua vida, para evitar que os problemas que você teve recentemente se repitam?

Truman – Meu problema nunca foi preencher minha vida, mas esvaziá-la, despi-la e simplificá-la. Mais um problema de esvaziar um vaso do que enchê-lo.

Club – Então, este foi um dos fatores que levaram ao que você chamou de colapso?

Truman – Eu sofria do que se chama vício duplo ou cruzado, uma combinação de drogas e álcool. Não tinha problemas com cada um separadamente; isto não seria muito bom, mas não teria sido tão desastroso.

Club – Desastroso?

Truman – Sim, estive perto da morte.

Club – O que você tomava?

Truman – Só tomava valiums e libriuns, sedativos leves, mas que são um perigo em potencial. Acho que os médicos que fornecem essas pílulas como se fossem balas não percebem o quanto tóxicas elas são principalmente para uma pessoa altamente energética como eu.

Club Como você se recuperou?

Truman – Fiquei um mês no Instituto Smithers na cidade em Nova York, que é muito bom. Porém, como eu precisei de um tratamento mais intensivo, fui para a Fundação Hazeldem em Minnesota, por três meses. É um centro de reabilitação para viciados em drogas químicas. Não tem atmosfera de um clube de campo, mas é um lugar isolado, com um tratamento rigoroso.

Leia um trecho do livro em formato PDF:


(PDF - 0,05 Mb)

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