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CARTAS A THÉO

Vincent Van Gogh
Tradução de Pierre Ruprecht

Coleção L&PM E-books
Formato ePub
ISBN 978.85.254.0212-7

R$18,90



CARTAS A THÉO

Vincent Van Gogh
Tradução de Pierre Ruprecht

Coleção L&PM Pocket
Ref. 21
416 páginas
ISBN 978.85.254.0619-4
Também em e-book

R$34,90

Vincent Van Gogh

É em Groot Zundert que Van Gogh nasce, em 30 de março de 1853. Seu pai, Theodore Van Gogh, era pastor; sua mãe, Anna-Cornelia Carbentus, era filha de um encadernador da corte. Família honrada e antiga: já nos séculos XVI e XVII, os Van Gogh eram eminentes burgueses. Muitos tinham o gosto pelas artes. No século XVIII encontramos em Haia alguns Van Gogh exercendo o nobre ofício de tirador de ouro. Outros tornaram-se comerciantes de quadros.

Vincent era o primogênito de uma família com seis filhos. Bem jovem, ele demonstra um extraordinário interesse por tudo que o cerca, especialmente pela natureza. Dono de um caráter pouco sociável, vagueia solitário pelos campos. Nem Anne, nem Elisabeth, nem Wil, e menos ainda seu irmãozinho Cor o acompanham. Entretanto, ele às vezes – e cada vez mais – leva consigo Theodore, que tem quatro anos a menos que ele. Theodore, o “Théo”, já é o amigo e confidente.

Quando completa doze anos, é internado no colégio da pequena cidade vizinha de Zevenbergen, retornando para casa somente nas férias de verão. Passam-se quatro anos sem que nada de excepcional aconteça na sua vida. Tudo começa aos dezesseis anos; em julho de 1869, graças ao tio Vincent – um antigo negociante de objetos de arte que gozava em Princehage de sua plácida aposentadoria –, o diretor da sucursal em Haia da prestigiosa Casa Goupil, importante galeria de arte da Europa, emprega o futuro pintor. Como vários Van Gogh do passado, ei-lo no comércio de quadros. É um empregado modelo: correto, consciencioso. Pouco a pouco vai formando suas opiniões. De Haia é enviado, sempre pela Casa Goupil, a Bruxelas. Cada vez mais ele se interessa por tudo o que vê, e freqüenta os museus reais. Lê muito – tudo o que lhe cai nas mãos, um hábito que ele manteria por toda a vida, mesmo nos tempos mais tumultuados em Arles. Um dia, em agosto de 1872, Vincent vai ao encontro de seu irmão em Oosterwyck, perto de Helvoirt, pequena aldeia à qual seu pai fora chamado. Théo está então com quinze anos; mas já tem o espírito muito aberto e precocemente formado. Vincent descobre no irmãozinho quase um homem feito. A partir de sua volta começa a escrever-lhe. E é então que inicia esta correspondência que irá, sem interrupções, durar até sua morte – e da qual talvez sequer uma linha tenha-se perdido.

Em janeiro de 1873 é a vez de Théo começar a sua vida. Isto deixa seus pais preocupados, mas a família é numerosa e pobre. Um pensamento consola um pouco a sofrida mãe: Théo já é bem maduro para seus quinze anos. É dotado de muito boa vontade e bastante prudência. Ele parte para Bruxelas para também trabalhar na Casa Goupil. Mais um laço entre os dois irmãos: o paralelismo de seus destinos.

Em maio, Vincent é enviado para a sucursal de Londres. Acaba de completar vinte anos. Lá, leva uma vida absolutamente tranqüila. As horas do dia são preenchidas com as mesmas ocupações, mas os dois irmãos estão distantes. Para ir ao escritório Vincent se apressa, mas volta vagueando. Na Inglaterra, ele tem mais tempo ao seu dispor do que na Holanda. Tem livres não apenas os domingos, mas também os sábados à tarde: a semana inglesa. E, sem percebê-lo, sem dar-se conta, sua vocação nascera e começa a se desenvolver. Ele se detém para desenhar à beira do Tâmisa não apenas uma vez, mas centenas... e fica triste, ao voltar para casa e perceber que os desenhos não se assemelham a nada.

Em julho de 1874 retorna para a Holanda. O pastor vê chegar um Vincent sombrio e atormentado: ele está apaixonado. A sra. Loyer, que dirige a pensão onde ele vive, tem uma filha, Ursula, pela qual Vincent apaixona-se. Ela se deixa cortejar, ele a pede em casamento e é repelido. Fica decepcionado, magoado, profundamente ferido. Contudo, durante estas poucas semanas que passa em Helvoirt, desenha bastante. Em meados de julho, volta a partir com sua irmã mais velha. Mas sente-se infeliz em Londres. Em outubro, por intervenção do tio de Princehage, é chamado a Paris.

Em dezembro, algumas semanas após sua chegada, volta bruscamente a Londres – em vão, pois não reencontra Ursula – e retorna a Paris. Sente-se desamparado, inquieto. Que fazer? Ele não sabe muito bem, e se pergunta sobre uma infinidade de coisas para as quais não tem respostas; perde-se em conjeturas. Um fato contudo parece-lhe evidente: a mediocridade de sua situação presente, e a certeza de um futuro também medíocre. Um pensamento de Renan o impressiona e o invade: “Esquecer-se de si, realizar grandes coisas, atingir a generosidade, e ultrapassar a vulgaridade na qual se arrasta a existência de quase todos os indivíduos...” Passam-se as semanas, chega o Natal, termina o ano. Ele não agüenta mais e foge para a Holanda – para voltar pouco depois e retornar bruscamente, em fins de março, para Etten. Em Paris, a Casa Goupil resolve despedir este empregado outrora exemplar e que se tornara detestável.

Bem que o pastor nota a mudança em suas idéias. Na verdade, Vincent quer ser pintor. Mas é preciso ganhar a vida. A partir de um anúncio, entra como professor numa escola em Ramsgate, na Inglaterra. Chega lá em meados de abril. Em julho acompanha a escola, transferida para Isle Worth.


Está cada vez mais preocupado. Que fazer? Dedicar-se à pintura? Mas isso não seria uma loucura? Resta-lhe um caminho a tomar. Alguém que não possa educar-se na arte, pode, ao menos, se quiser, tornar-se um justo aos olhos de Deus. “Sinto-me atraído pela religião”, escreverá ele a Théo. “Quero consolar os humildes. Acredito que o ofício de pintor ou de artista é belo, mas creio que o ofício de meu pai é mais sagrado. Gostaria de ser como ele...” Abandona a escola de Isle Worth e passa a servir um pastor, Mr. Jones. Ei-lo pregador. Mas não tem nenhum preparo, nenhum dom de oratória. Despedem-no. Novamente no Natal bate à porta da casa paterna, fracassado, outra vez.

Novamente o tio de Princehage encontra-lhe um modesto emprego de escriturário numa livraria em Dordrecht. Ele aceita, e toma a resolução de transformar totalmente sua vida. “Não estou só”, diz ele, “pois Deus está comigo. Quero ser pastor. Pastor como meu pai!” Este apelo, repetido, não ficaria sem resposta. O pastor Van Gogh reúne um conselho de família. Concordam em enviar Vincent à Universidade de Amsterdam. Lá, ele residirá na casa de um de seus tios, na Marineweff. Imediatamente Vincent atira-se aos estudos. Mas estudar torna-se para ele uma tortura. De maio de 1877 a julho de 1878, se consome em esforços... para afinal abandonar os estudos e voltar, uma vez mais, à porta da casa de Etten.

Desiste da Universidade. Resolve que quer ser missionário entre os pobres mineiros do Borinage. Para isto, basta-lhe seguir durante três meses os cursos da escola preparatória evangelista de Bruxelas. E, portanto, vai a Bruxelas. Lá, as mesmas dificuldades. Vincent conhece mal o francês e não tem nenhum dom de oratória. Não é nomeado. O pai acorre junto ao filho desamparado. Finalmente dão a Vincent uma missão de seis meses.

Nos últimos dias de dezembro, as pessoas do burgo de Patûrages, próximo a Mons, vêem chegar um homem vestido com roupas muito simples. Sabem que ele está hospedado em casa do mascate Van der Haegen, que é pastor, e que vem da Holanda. Logo, todos já o conhecem. Ele visita os doentes e os reconforta, lê para eles o Evangelho. Algum tempo depois, deixa Patûrages para ir a Petites Wasmes, a algumas léguas dali.

Wasmes é o coração do Borinage, o centro do “país negro”, das minas de carvão, sucessão de colinas cortadas por barrancos em terra viva nos quais, aqui e ali, aparece a hulha. Ao sul, grandes bosques fecham o horizonte. Nesta região, há séculos, vive um grupo de homens que passa metade de suas vidas agitando-se nas entranhas da terra. Esta atividade subterrânea revela-se à superfície do solo: vêem-se altas gaiolas, grandes pirâmides negras, duas vezes mais altas que as casas, clarões avermelhados sobre os quais flutuam vapores cinzentos e fumaças sombrias. Uma paisagem humana que não deixa de ter sua grandiosidade. À noitinha, as janelas dos botequins se iluminam, enquanto que as mulheres, ao fundo, ocupam-se de suas cozinhas. Esses mineiros são pobres mas suas vidas não são apenas misérias e provações. Vincent, no entanto, só vê tristeza e opressão. E, na intenção de aliviá-las, dedica-lhes o zelo de um apóstolo. Entrega-se por completo à sua exaltação mística. Passa a viver numa cabana de tábuas, dorme na terra nua, usa um velho camisão de soldado; cuida dos doentes de tifo, despoja-se até de suas roupas. No entanto, ele é mau pregador e seu comportamento, longe de levar os mineiros à virtude, os impressiona e escandaliza. Ao mesmo tempo ele continua a desenhar nos poucos momentos livres que se permite.

Entretanto sua missão não é renovada pelo Consistório. Novamente Vincent está perdido. Volta a pé, sem um tostão, detém-se em Bruxelas na casa de um amigo, e a seguir, em agosto de 1879, mais uma vez vai bater à porta da pobre casa de Etten. Só que agora não há mais lugar na sua casa. Conseguirá viver só? Ele parte, o cajado nas mãos, mochila às costas, de volta ao Borinage.

Começa então o mais sombrio período de sua vida. Ele caminha aqui e ali, sob o vento do outono, sob o vento do inverno. Dorme à beira dos caminhos, em celeiros, debaixo de carroças. E de que vive? Do pouco dinheiro que Théo lhe envia. Théo chega até a achar meios de encontrá-lo, de dizer-lhe algumas palavras esperançosas, de encorajá-lo enfim em sua vocação de pintor. Vincent caminha durante oito dias para ir a Carrières ver Jules Breton, a fachada imponente da casa o intimida a ponto de não ousar bater à porta. Volta a Cuesmes. A seguir, na primavera, retoma o caminho para o norte, e volta a Etten... Algumas semanas depois, está novamente no Borinage.

Apesar de todas as dificuldades e angústias ele, enfim, acredita ter descoberto o seu caminho: será pintor, nada mais que pintor! É julho de 1880 quando ele escreve a carta na qual abre-se profundamente a Théo, na qual descreve a horrível angústia em que se encontra, suas lutas, seus desesperos, e também sua esperança radiante. Teria alguém jamais escrito apelo tão comovente, tão dilacerante? Théo ficou profundamente emocionado. E ficou também completamente convencido. A partir de então, se dedicará inteiramente ao irmão. Esta ajuda, que até o momento lhe dedicara por pura afeição, agora compromete-se a continuá-la para sempre, porque confia. Acredita realmente em Vincent. E é graças a esta confiança que o gênio de Vincent aparecerá.

Desde então, eles tornam-se ainda mais ligados. A correspondência fica mais freqüente ainda; não se passa uma só semana, e logo um só dia, sem que o coração tumultado de Vincent não se derrame: é um diálogo ininterrupto. Vincent relata tudo o que vê, tudo o que faz, tudo o que pensa.

Outubro de 1880. Vincent instala-se em Bruxelas. Ali permanece até abril, retornando a Etten, onde sabe que reencontrará Théo. Ficará em Etten até dezembro. Mas estoura um novo drama: ele se apaixona por uma prima. Declarações, recusas, desespero – aos quais vem se acrescentar a cólera paterna. E Vincent torna a partir. Antes mesmo do Natal está em Haia, onde se aconselha e aprende com seu primo, o pintor Mauve.

A Mauve pertencerá a honra de ter reconhecido o talento nascente de Vincent. Mauve faz tudo o que pode por seu primo. Encontra-lhe hospedagem, arruma-lhe trabalho. Mas um dia o caráter ferozmente independente de Vincent se revela mais uma vez – e vem a briga.

Em fevereiro, numa noite de vadiagem, ele encontra uma mulher bêbada, que se propõe a posar para ele. Ele a leva ao ateliê, juntamente com sua filha, e começa então a banal e lamentável aventura que durará cerca de vinte meses. “Sien”, como era conhecida Clasina Maria Hoornik, desaparece finalmente de sua vida em setembro de 1883, mas marcará a vida do pintor pelo sofrimento eternizado em pungentes desenhos da série “sorrow”. E Vincent interna-se, no norte, na região de Drenthe. Antes do Natal, ele mais uma vez baterá à porta da casa paterna em Nuenen. Será a última.

Sua estadia se prolonga. Nas duas peças que o sacristão da igreja católica lhe aluga, ele instala um ateliê. E este incansável trabalhador não se concederá nenhuma trégua. Amontoam-se retratos e paisagens. Um amor ainda, um noivado, rompido pelos pais da moça... o tempo escoa. Em 27 de março de 1885, o pastor Van Gogh morre subitamente, retornando de um passeio, à porta de sua casa.

Em novembro Vincent volta à estrada. Vai para Antuérpia: acabou-se a Holanda. Em Antuérpia, uma dupla revelação: a arte de Rubens e a arte japonesa, através das estampas. A partir de agora, as etapas se precipitarão. Em março de 1886, ele está em Paris. Reencontra Théo.

Théo é o diretor da Casa Goupil, na rua Montmartre. Acolhe o primogênito como uma criança. Ambos morarão juntos, no pequeno apartamento de Théo, rua de Laval, hoje rua Jean Massé.

Vincent permanecerá por dois anos em Paris, de março de 1886 a fevereiro de 1888. Naturalmente, a preciosa correspondência se interrompe. Para recomeçar imediatamente após a separação dos dois irmãos.

E o que faz Vincent em Paris? Primeiro acha que tem que se instruir. Vai humildemente para a escola, entra no ateliê de Cormon. Demonstra uma aplicação quase comovente. Passa seu tempo nos museus, especialmente no Louvre, faz cópias de Delacroix de Millet. Mas logo abandona o ateliê Cormon – sentindo que lá ele não tem o que aprender – e começa a trabalhar ao ar livre, à maneira dos impressionistas que ele tanto admira. Parte pelas manhãs, uma tela às costas, a caixa de cores nas mãos. Instala-se onde melhor lhe aprouver, antes de mais nada o mais próximo possível de seu objeto. Montmartre o seduz muito, suas ladeiras tortuosas, suas tavernas, seus moinhos – tudo o encanta. Ele pinta todos os aspectos desta imensa “aldeia”. A seguir, amplia suas investigações, vai até os limites da cidade, atinge o subúrbio. No verão, ele passa seus dias à beira do Sena, em Saint-Cloud ou Neuilly.

Às vezes vai ao encontro de seu irmão no escritório dele; mas a esta casa acadêmica ele prefere a lojinha do “pai” Tanguy, este admirador de Cézanne, de Renoir. Freqüentam-na Signac, Seuret, Gauguin uma dos mais influentes – Gauguin, de quem Vincent torna-se muito amigo. As noites, ele as passa em companhia de seus novos amigos, muitas vezes no cabaré do Tambourin, dirigido por uma antiga modelo de Gérôme, la Segattori (Agostina Segattori sentada no Café Tamborin, Rijksmuseum Vincent Van Gogh, Amsterdam). Logo uma grande intimidade liga Vincent a Segattori, intimidade que se romperá certa noite, não sem violência.

Contudo a luz e a cor tinham seduzido Vincent. Atormenta-o o desejo de mais luz e de uma cor mais brilhante. Além disso, nada mais tinha a aprender em Paris. Decide-se então, talvez a conselho de Toulouse-Lautrec, a ir para o sul (mais tarde em 1887, Vincent teria novo encontro com Toulouse Lautrec, que o retrataria num almoço em Montmartre). “É no Midi”, declara um dia a Émile Bernard (1868-1941, parisiense, pintor impressionista amigo que fez a aproximação de Vincent com Gauguin e Lautrec) , “que é preciso instalar o ateliê do futuro.” No dia seguinte ele parte para Arles.

No próprio dia da chegada – provavelmente em 20 de fevereiro – ele escreve a Théo. A partir de então as cartas recomeçam, e seguem-se quase que diariamente. Nestas cartas, escritas em francês – Vincent considera-se já há muitos meses um francês –, ele diz tudo. Como nas cartas anteriores, escritas em holandês, seu texto continua duro, ruim. Este grande pintor jamais teve o dom da palavra. Em seu estilo entrecortado e reticente, ele fala de suas idas e vindas, de seu método de trabalho, das características da região, do grande sol, dos hábitos das pessoas, de suas leituras, de sua casa, e finalmente de seu sonho de fundar com os amigos um ateliê comum. Nelas também seguimos o despertar de uma crescente exaltação, sob a ação de um sol ardente. Ele desenha e pinta sem parar e, tarde da noite, escreve. Nos poucos meses que se seguem – de março a dezembro de 1888 – constrói uma obra artística prodigiosa, e um verdadeiro testamento literário: pois, mesmo sem escrever bem, Van Gogh impregna suas cartas de tamanho vigor e energia que elas terminam por tornar-se um documento tão admirável quanto os diários de Kafka ou Dostoievski.

Mas Cartas a Théo nos contam também de suas múltiplas alegrias. Alegria das cores, da luz; alegria por finalmente instalar uma casa, a “casa dos amigos”, iluminada por uma decoração em que o dominante é a cor da pura afeição, o amarelo triunfal, alegria em ver chegar o primeiro dos amigos, Gauguin. Apenas uma destas cartas talvez deixe entrever a iminente catástrofe. A seguir, a correspondência cessa bruscamente – para só reiniciar quinze dias mais tarde. É que, neste intervalo, estourou o drama. Na noite de Natal, Vincent lançou seu copo à cara de Gauguin. À noite, ele decepa um pedaço de sua orelha e leva-a, bem embalada, para o outro vértice deste amargo triângulo amoroso: uma prostituta do bordel que ele freqüentava. Vincent está louco. Conduzem-no ao hospital. E lá, entre duas crises, este homem surpreendente reencontra seu gênio, e pinta.

A 7 de janeiro, ele retorna para casa. Mas lá, revê apenas sombras, primeiro a sua própria; a seguir, a do amigo que partiu. E a vida torna-se então dolorosa. Alucinações se sucedem, obcecam-no, aterrorizam-no. Ele é possuído pelo pior dos sofrimentos: a angústia. As cartas tornam-se pungentes.

Perseguido em Arles por uma população que agora o teme e se assusta à sua vista, perseguido pela angústia da próxima crise, ele se decide, sob os insistentes conselhos de Théo e do pastor Salles, a entrar no asilo de Saint-Rémy.

O asilo de Saint-Paul de Mausole, em Saint-Rémy, bem próximo ao Arco do Triunfo e ao mausoléu, que estão entre os mais belos monumentos romanos da França, é um antigo monastério. Uma ala de pinheiros anuncia sua entrada. Nos pavilhões, imensos, um médico, o doutor Mercurin, tinha instalado no começo do século XIX uma casa de saúde.

Para quem visita o asilo de Saint-Rémy, nada parece ter mudado desde a época de Van Gogh. Na grande ala norte, ao longo de um corredor, seguem-se vários quartinhos. Quase no meio está aquele que Vincent habitou, e cujas paredes estão ornamentadas com reproduções das obras pintadas por ele em Saint-Rémy. Pela janela aberta (pela qual, após um salto, chegamos em plena campina) avistam-se, bem próximas, as abruptas encostas das Alpilles; em frente, terras cultivadas e árvores. À esquerda, um muro, além do qual adivinha-se a cidadezinha. No fim desta ala, no andar de cima, foram cedidas duas peças a Vincent, nas quais ele fez seu ateliê. Lá de cima, a vista é extensa, ao longo surge Avignon e os picos dos Alpes.

Vincent passa momentos de dor, de desespero, de melancolia, de calma – e contudo não pára de pintar. De certas frases de suas cartas, pode-se imaginar o quanto ele sofreu com os incessantes berros de seus infelizes companheiros. Mas talvez jamais tenha pintado melhor, com mais sensibilidade, com mais intensidade do que em Saint-Rémy. Ele próprio traduz à sua maneira os dois estados entre os quais oscila sua razão – a ansiedade e a calma – ao descrever duas pinturas a Émile Bernard: “Esta combinação, de ocre vermelho, de verde entristecido pelo cinza, de traços negros que cercam os contornos, produz um pouco a mesma sensação de angústia de que freqüentemente sofrem alguns de nossos companheiros de infortúnio, e que chamamos de ‘negro-vermelho’. E o tema da grande árvore atingida pelo raio, o sorriso doentio verde-rosa da última flor de outono vêm confirmar esta idéia.

“Uma outra tela representa um sol nascendo sobre um campo de trigo novo; linhas fugidias, sulcos subindo ao alto da tela, contra uma muralha e uma fileira de colinas lilás. O campo é violeta e amarelo-esverdeado. O sol branco é cercado por uma grande auréola amarela. Nisto tudo eu tentei, por contraste com a outra tela, exprimir a calma, uma grande paz...”

Em janeiro de 1890, no Mercure de France, um crítico, Albert Aurier, assinala sua pintura: é a primeira vez que a notam. Vincent se regozija. No mês seguinte, Théo lhe escreve dizendo ter vendido seu quadro O Vinhedo Vermelho. Primeiro, e único, quadro vendido antes da sua morte.

Mas ele quer partir. Théo passa a procurar um abrigo seguro. Pissarro lhe comunica que em Auvers-sur-Oise mora um amigo dos artistas, o doutor Paul-Ferdinand Gachet, colecionador de Cézanne, Pissarro, Guillemin, entre outros pintores. Vincent ficaria bem junto dele. Em 18 de maio de 1890, Vincent deixa Saint-Rémy.

Em Paris, ele fica feliz em reencontrar Théo, sua mulher e sua filhinha, pois Théo se casara um ano antes. Revê seus quadros (que estão em toda parte, até debaixo dos móveis); sente prazer em apertar a mão dos amigos que vêm visitá-lo. Está apenas de passagem. No dia 21 de maio já está instalado em Auvers como pensionista do Café Ravoux, na praça da Prefeitura.

Novamente tudo pode ser encontrado nas Cartas que se seguem: seu trabalho, seus passeios pelo campo, sua crescente afeição pelo doutor Gachet (várias vezes retratado por Vincent), seu humor inconstante, sua melancolia... Em 27 de julho, tomado pela angústia da crise que ele sente aproximar-se, dispara uma bala no coração. Estava nos trigais, atirando nos corvos, quando decide dar fim a própria vida. Mas o tiro se desvia: a bala se aloja na virilha. Ele encontra forças para voltar para a casa e não avisa ninguém. Não o vendo descer para o almoço, o pessoal da pensão onde estava hospedado sob a vista do Dr. Gachet vai procurá-lo em seu quarto. Ele está prostrado, sangrando. O dr. Gachet chega imediatamente e constata que é impossível tirar a bala. Vincent recusa-se a dar o endereço de Théo, que somente é avisado no dia seguinte. Imediatamente Théo vai para Auvers-sur-Oise e encontra o irmão fumando cachimbo aparentemente tranqüilo. Théo não se conforma com a possibilidade da morte do irmão, já muito fraco. Mas não há mais o que fazer, Vincent está determinado a morrer. Conversa o dia inteiro em holandês com Théo, que à noite deita-se ao lado dele. À uma e meia da manhã Vincent murmura: “Quero ir embora”, e morre.

Uma carta, que é só dúvidas e desespero, é encontrada com ele. A última carta a Théo, que só lhe chegou às mãos depois da morte de Vincent. Théo não pôde suportar a dor. Atingido por uma paralisia, transportado para a Holanda sob os cuidados de sua mulher, ele morreria alguns meses mais tarde, em janeiro de 1891. Os irmãos cuja amizade tornou-se legendária repousam lado a lado em Auvers-sur-Oise.

Relato biográfico publicado em Cartas a Théo (L&PM POCKET, v. 21)

Opinião do Leitor

"MUITO LEGAL!!!!!!!!"

Taylla Vieira da Silva
Araçatuba SP

"tá muito legal"

kdfnkdjlse
iraque

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